1412
Não se conhece com certeza a época em
que, por mandado do Infante D. Henrique, saíram de Portugal os principais
descobridores a correr a Costa Ocidental da Berberia; mas sabe-se que, neste
ano de 1412, mandou uma embarcação a essa comissão talvez fosse a
primeira que dobrou o Cabo de Não (1).
As embarcações empregadas nestas
viagens eram grandes barcos Latinos de coberta, demandando pouco
fundo, e pequenas equipagens, sistema bem adaptado às circunstancias; porque os
Descobridores partiam no Verão, em que dominam na Berberia
os ventos do primeiro quadrante, e sobre tudo os do quarto, com os quais iam á
popa, mas na volta para Portugal, com estes ventos ficavam ponteiros, era-lhes
necessário ir bordejando para o Norte, até avistarem algum ponto da Costa já
conhecido, donde pudessem atravessar em busca dos portos do Algarve, sem
risco de se desgarrarem para o Ocidente.
Tinham de mais a vantagem de se
poderem chegar bem a terra, ou para buscarem abrigo, ou
para examinarem os Rios, Portos, e Baías que descobrissem; e sendo
as suas guarnições pequenas, achavam mais facilmente aguada,
e refrescos. Nesses descobrimentos empregava o Infante duas e três embarcações
cada ano, e às vezes mais; e assim porfiou
com grandes despesas até ao ano de 1433, sem achar hum navegante,
que se aventurasse a dobrar o Cabo Bojador, que parecia tão
terrível antes de o ser, como pareceu pouco formidável depois. Não
pude descobrir o nome do comandante desta primeira embarcação, que se disse ter
chegado ao Cabo Bojador, nem as circunstâncias da sua viagem. A cada passo
se encontrão destas omissões nos nossos antigos escritores, até em matéria de
grande importância.
(1) O Cabo Não está situado na Costa Ocidental da África. Próximo a este cabo está uma boa Baía, onde vem desaguar
hum Rio.
«Partiam os Exploradores prometendo atrevimentos; mas voltavam sem acção,
que os honrasse, não se animando a passar do Cabo Bojador sessenta
léguas a diante do de Nam. Ali paravam, espantados de um novo
movimento das águas, parecendo-lhes, que serviam; e a causa era um
baixo de seis léguas medonho à vista, e impossível
a vencer-se por quem não sabia navegar, senão de
Levante a Poente. Se os Pilotos daquela idade soubessem cortar mais largo, e afastar-se
do Cabo as léguas, que ocupava o baixo, passariam a diante; porém como aquela Costa
era a única agulha de que se serviam, ou fosse ignorância, ou medo, não se arrojavam
a apartar-se do seu rumo.»
Cândido
Lusitano, Vida do Infante D. Henrique, Lisboa, Oficina
Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, MDCCLVIIl., pp. 151-152
«Mas os navios , que daquela vez , e doutras foram, e vieram, não descobriram
mais que té o Cabo Bojador , que será avante de Cabo de Nam obra de sessenta léguas, e ali paravam todos, sem algum ousar de cometer a paisagem dele.
Porque como este Cabo começa de encurvar a terra de mui longe , e ao repelo da costa
que atrás tinham descoberta , lança , e boja para Oeste perto de quarenta léguas, (donde deste muito bojar lhe chamaram bojador,) era para eles cousa mui nova
apartar-se do rumo, que levavam, e seguir outro para Oeste de tantas léguas.
Principalmente porque no rosto do Cabo achavam uma restinga ,. que lançava para o mesmo rumo da Leste obra de seis léguas ; onde por razão
das águas , que ali correm naquele espaço , o baixo as move de maneira , que
parecem faltar , e ferver : a vista das quais era a todos tão temerosa
, que não ousavam de as cometer, e mais quando viam o baixo. O qual temor
cegava a todos , para não entenderem , que afastando-se do Cabo o espaço das seis léguas
, que ocupava o baixo, podiam passar além ; porque como eram costumados ás
navegações , que então faziam de Levante a Poente, levando sempre a costa na
mão por rumo da agulha , não sabiam cortar tão largo que salvassem o espaço
da restinga , somente com a vista do ferver destas águas, e baixo que achavam,
concebiam que o mar dali por diante era todo aparcelado , e que não se podia
navegar; e que esta fora a causa, por que os povoadores desta parte da Europa
não se estenderam a navegar contra aquelas regiões. … de maneira que a navegação das
tais regiões eram mais praias cobertas de baixos, que mar navegável.»,
João de
Barros, Década L Liv. I. CAP. II. pp. 20-22, Lisboa, 25 de Fevereiro de 1778, Nicoláo Pagliarini, Director geral da
Regia Oficina Tipográfica
«… Porque diziam muitos que· como se havia
de passar hum cabo que os marcantes de Hespanha puseram por termo e fim
da navegação daquelas partes , como homens que sabiam .não se poder navegar o mar, que estava além dele , assi por as grandes
correntes , como .por ser mui aparcelado , e com tanto
fervor das aguagens , que sorvia os navios.», ibidem, Cap. IV, p. 37 « e segundo a sua situação , podemos
dizer ser aquele o Cabo , a que Ptolomeu chama Ganaria promontório.» Ibidem,
p. 41
«O puro sistema económico foi sempre materialista, e nunca se doeu
da escravização dos corpos e das consciências aos seus interesses. Portugal foi encontrar esse sistema que adoptou e praticou também. Lemos, de facto, no ltinerarium, do
Dr. Jerónimo Münzer (31): «Este D. Henrique, irmão de D.
Duarte, vendo que os rendimentos paternos não chegavam para tão grandes despesas, dedicou-se ao
descobrimento de novas terras. Sabendo que o rei de Túnis, isto é, de Cartago, obtinha todos os anos
muito ouro, mandou espiões a Túnis, e, tendo averiguado que esse rei enviava mercadorias à Etiópia do sul através dos Montes Atlânticos, recebendo em troca escravos e ouro, tentou fazer por mar o que o rei de
Túnis fazia havia muitos anos por terra».
(31) Em Monumenta Missionaria Africana,
2.•, 1, p. 215.»
Henrique
Pinto Rema, As primeiras missões da Costa da Guiné 1434-1533, Boletim
Cultural da Guiné Portuguesa, N.o 83, 1966
1415.07.25
No tempo de D. João I (1385-1433) tropas portuguesas sob o seu comando
conquistam Ceuta. Este acontecimento é geralmente referido como o início da
expansão ou descobrimentos portugueses. O primeiro passo da expansão
ultramarina teve lugar em 25 de Julho de 1415 com a partida de Lisboa da armada
de 200 embarcações para a conquista de Ceuta, tendo chegado, no dia seguinte, a
Lagos e, no dia 21 de Agosto, a Ceuta. Mas a armada apenas prosseguiu viagem de
Lagos quando, no dia 28 de Julho, foi lida a Bula de Cruzada concedendo
absolvição plenária a todos os participantes. D. João I, depois de confirmar a
independência nacional, iniciou as conquistas de além-mar, a Expansão marítima
e a obra dos Descobrimentos: “Em 1415, portanto decorridos apenas
quatro anos sobre a assinatura da paz com Castela, o rei de Portugal, à frente
de uma enorme expedição militar (19.000 combatentes, 1700 marinheiros, 200
navios), conquistou a importante cidade de Ceuta, no Norte de África. Este
facto é considerado como o ponto de partida da política oficial da expansão
ultramarina.”46
1416
O famoso cosmógrafo Jácome de
Maiorca, contratado para instruir o Infante e os seus homens, veio logo
nesse ano (1416) instalar-se em Sagres.
E a João Gonçalves Zarco,
fidalgo da sua casa, deu o Infante o comando de uma frota de cruzeiro na costa
marroquina.
a
1418
Antes de Gil Eanes, em 1418, fora
mandado Bartolomeu Perestrelo, cavaleiro da casa do infante D. João, dobrar o
Bojador; sendo assaltado por um temporal não conseguiu e nem tentou mais.
«Neste anno foi mandado Bartolomeu Perestrello, Cavaleiro da Casa do Infante D. João, á
empresa de dobrar o Bojador; mas sendo assaltado da tempestade, perdeu a
derrota que levava, e foi arrojado a huma ilha desconhecida, a que deu o nome
de Porto Santo, por ter achado nela abrigo; e descanso de sua trabalhosa
navegação.
Damião de Goes, e Soares da Silva põem
este descobrimento no anno seguinte de 1419.
Alguns negam que Perestrello fosse o
descobridor desta ilha, e somente dizem que o Infante lhe dera a Capitania
delia: mas a prática geral daquele tempo nos parece persuadir o contrário.»
São Luís, Francisco de, [Cardeal Saraiva], Índice cronológico das navegações,
viagens, descobrimentos e conquistas dos portugueses nos países ultramarinos
desde o princípio do século xv. Lisboa, na Imprensa Nacional, 1841, pg. 9
1419
«A Providencia dispunha estas demoras para dar a João Gonçalves Zarco, e a Tristão
Vaz a primeira gloria desta empresa. Eram ambos Cavaleiros da Casa do Infante,
e que na acção de Ceuta serviram a Pátria com tanto valor, que seu Amo entre os
soldados mais dignos reservava para eles um lugar distinto. Depois da
tomada daquela Praça, ambiciosos de mais fama (comércio corrente dos Portugueses
naqueles bons tempos) pediram estes animosos Cavaleiros ao Infante, que visto
armar navios para o descobrimento da Costa de Barbaria, e Guiné, se servisse ocupá-los
em tão honrado serviço. Como eram pessoas, que tinham nos feitos intrépidos
bons fiadores para se lhes cometerem acções arriscadas, alegre aceitou o
Infante o oferecimento, parecendo-lhe que via já de perto o fim venturoso de
suas esperanças.»
Cândido Lusitano, Vida do Infante D.
Henrique, Lisboa, Oficina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, MDCCLVIIl.,
pg. 153
1420
No anno seguinte de 1419 voltou
Perestrello com os outros dous navegantes, João Gonçalves Zarco, e Tristão
Vaz, Cavaleiros do Infante D. Henrique, cada um em seu navio á ilha de
Porto Santo, levando Perestrello ordem, e alguns preparos para começar a
sua cultura.
Dizem os escritores antigos, que
lançando-se na ilha uma coelha, que no mar havia parido, fora a criação destes animais
em tanto aumento, que destruíam as searas, e por algum tempo retardarão, ou
embaraçarão o projecto da colonização da ilha.
O Perestrello voltou a Portugal:
mas João Gonçalves, e Tristão Vaz, tendo observado huma espécie de
nevoeiro, que constantemente se lhes oferecia no mar, e sempre no mesmo sitio,
e direcção, suspeitarão o que poderia ser, e dirigindo-se para aquela parte,
descobrirão a ilha da Madeira, a que deram este nome pelo alto e basto
arvoredo, de que a acharão coberta. Algumas antigas memorias dizem que
Francisco Alcoforado, Cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique, fora neste
descobrimento, e o descrevera em huma exacta Relação. De João Gonçalves Zarco
se diz que foi o primeiro Português, que usou da pólvora, e artilharia nos
navios. Manoel Thomaz, na Insulan. 1. 1.° est. 83 falando dele diz
«Bem é verdade, que este o
Lusitano, Primeiro foi, no mar com nome eterno. Que usou da dura fruta de
Vulcano, E o salitrado aljôfar do inferno;»?
São Luís,
Francisco de, [Cardeal Saraiva], Índice cronológico das navegações, viagens,
descobrimentos e conquistas dos portugueses nos países ultramarinos desde o princípio
do século xv. Lisboa, na Imprensa Nacional, 1841. Pg.10-11
1420
Reconhecimento
da ilha da Madeira por João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu
Perestrelo
1422
Primeira
tentativa de passagem do Cabo Bojador ordenada pelo infante D. Henrique.
Após
sucessivas viagens, o cabo Não, considerado o limite navegável a sul por
árabes e europeus, é ultrapassado, alcançando-se o Bojador.
1424
Tentativa
de conquista da Grã-Canária comandada por D. Fernando de Castro.
Anos depois, tendo um certo Maciot de
Bettencourt, donatário virtual das Canárias, doado os seus direitos ao infante
D. Henrique, este, em 1424, mandou ocupar essas ilhas selvagens, por uma forte
expedição de 1:500 homens e 120 cavalos, sob o comando de D. Fernando de
Castro. Conquistadas parte das ilhas, «Plantada afim a Fé em uma grande parte das Canarias era necessário não só
cultivar o disposto mas semear mais o terreno:
mandou logo o Infante a Antão Gonçalves, seu Guarda-roupa com Ministros do
Evangelho; estes para obreiros da nova vinha, e aquele parra conservar em paz,
e justiça aos convertidos, defendendo-os dos teimosos em viver na religião que
lhes deixaram seus Maiores. Crescia a Conquista com honra para Portugal, porque
com fruto para a Igreja, quando entrou a contentar a EIRei de Castela o nosso
trabalho; e querendo incorporar as novas terras à sua Coroa, mostrou, que com
gente, mantimentos, e munições do seu Reino, se apoderaram os dous Betancoures
das Ilhas Lançarote, Forteventura, Ferro, e Gomeira, os quais
em reconhecimento sempre deram obediência a Hespanha... Nós não quisemos então
entregar a causa à justiça das armas, ou por parecerem justas as razões de
Catela, ou por o aconselhar assim uma oculta política. Votou o Infante que se
largasse a Conquista; protestando, que não levando ele em suas empresas outro
fim, se não o de dilatar o nome Cristão, este
já o havia conseguido naquelas Ilhas, introduzindo, e radicando nelas a Lei do
Evangelho; e que entregando-as aos Castelhanos, vinham eles por sua grande
piedade, e religião a ser novos instrumentos de fé completarem seus desejos. Restava
só nesse negócio atender Hespanha às grossas despesas que o Reino, e o Infante
fizera na dita Conquista; mas foram depois contempladas nos Capítulos das pazes
entre os Reis D. Fernando de Castela, e D. Afonso V, os quais julgamos, se não alheios,
tediosos para o nosso argumento.»
Cândido Lusitano, Vida do Infante D.
Henrique, Lisboa, Oficina
Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, MDCCLVIIl., pg. 181
Bettencourt é
um apelido de família da onomástica da língua francesa com raízes toponímicas. Os Bettencourt,
sobrenome também grafado por vezes como Bitencourt ou Bittencourt, são
originários da Normandia, onde foram
Senhores de Béthencourt e Granville. Fixaram-se
primeiro nas ilhas Canárias em 1402 nas pessoas de Henrique e Maciot de Bettencourt, sobrinhos
de Jean de Bettencourt, que recebera o
senhorio das ilhas e que se chegou a intitular rei das Canárias. Das ilhas
Canárias passaram à ilha da Madeira e desta
para os Açores, na pessoa
de Francisco
de Bettencourt que faleceu em Angra em 1592, deixando como
herdeiro o filho primogénito João de Bettencourt de Vasconcelos, tristemente
celebrizado pela adesão que teve à causa de Filipe II de Espanha. Esta adesão
valeu-lhe ter sido degolado na Praça Velha da cidade de Angra do Heroísmo, a mando
da justiça do Prior do Crato.
ORIGENS
HISTÓRICAS
A família
Bettencourt é originária da França, da região
da Normandia, lugar de Béthencourt, Nord na região
de Nord-Pas-de-Calais na Picardia, pelo que o seu
apelido é de raiz toponímica. O primeiro
desta família a chegar à Península Ibérica foi Messire
Jehan de Bethancourt ou Jean de Bettencourt que partiu
à descoberta ao comando de uma frota de naus, veio a
encontrar o arquipélago das Canárias, das quais se
intitulou rei. Jean de Bettencourt não teve
filhos, pelo que foram seus herdeiros Maciot Bettencourt e Henri de Bettencourt, seus irmãos.
Falecendo
Maciot, vendeu Henri de Bettencourt aquelas ilhas ao Infante D. Henrique de
Portugal, passando em seguida à ilha da Madeira, onde se fixou e
teve as saboarias da ilha.
Jean de
Bettencourt também não teve descendência legítima por ser Cavaleiro professo
da Ordem
de São João de Jerusalém, na altura chamada Ordem
de Rodes. No entanto obteve a legitimação de uma filha bastarda, que foi casada
com Rui
Gonçalves da Câmara, casamento de que também não houve descendência. Perante esse facto a
esposa instituiu com o citado marido o morgado que veio a
ser conhecido por Morgado de Águas de Mel, chamando para
seu primeiro administrador Germano Gaspar de Bethancourt, seu primo. Este Germano Gaspar de Bethancourt teve
muita descendência, que se dispersou tanto nas ilhas atlânticas como no
continente português tendo o seu nome sido deturpado para Bethencourt e
popularizado sob as mais diversas formas: Bettencourt, Betencour ou Betencur,
Bittencourt, Bitencourt, etc.
1425
Possível
início da colonização das ilhas da Madeira e Porto Santo
Primeiras
navegações ao mar dos Sargaços a
1426
1427
Nova
expedição contra a Grã-Canária liderada por António Gonçalves da Câmara
Possível
descoberta das ilhas dos grupos Central e Oriental dos Açores por Diogo de
Silves, piloto do rei
1429
O infante D. Henrique tenta por mais de
doze anos dobrá-lo com os seus navios.
Depois de tantas investidas sem
resultado algum, é fácil de presumir que a opinião dos geógrafos árabes causava
medo aos navegadores daquela época, aos quais eles davam inteiro crédito.
Foi o Bojador
dobrado pelos anos de 1429 a 1430 e assim desfez Gil Eanes a lenda daqueles geógrafos; a notícia ecoada por
toda a Europa inspirou a todos os povos uma grande admiração pelos portugueses.
Vieram fidalgos e marinheiros de
todas as nações, castelhanos, italianos, alemães e suecos, a Portugal para
tomarem parte nas nossas grandes empresas e verem as maravilhas, que a nossa audácia
arrancara ao mistério em que estavam sepultadas.
«Gil Eannes, natural de Lagos,
dobrou enfim o formidável Bojador.
Dizem os antigos escritores portugueses,
que esta passagem do cabo fora então reputada como huma façanha igual a algum
dos trabalhos d’Hércules: expressão, que hoje parece nimiamente
exagerada, mas que o não era tanto naqueles tempos, vistas as dificuldades, os
medos, e os perigos, que ou se tinham experimentado, ou se imaginavam e supunham
na mesma passagem, e que por tanto tempo a haviam retardado.
Parece-nos
não se ter ainda determinado com bastante precisão, e certeza a época deste
notável acontecimento. Muitos dos nossos escritores a referem ao anno de 1433:
alguns ao de 1432: outros ao de 1434: e outros finalmente ao de 1428.
Se nesta
matéria pôde haver lugar a conjecturas, nós temos por mui verosímil que a
passagem do Bojador se executou em 1429 ou quando mais tarde em 1430. As
razões, em que nos fundamos, são as seguintes:
Primeira: que os nossos antigos uniformemente
dizem, que o Infante D. Henrique, por mais de doze anos, fizera tentativas para
dobrar este cabo, mandando a ele frequentemente os seus navios. E como estas
tentativas começarão logo depois da expedição de Ceuta, isto he, em 1416,
ou ao mais tardar em 1417, parece que a passagem do cabo seria em 1429 ou em
1430.
Segunda: que o Papa Martinho V. permitiu por
huma sua bulia, que se pudesse contractar e comerciar com os infiéis. Esta
permissão, cuja verdadeira data ignoramos, não podia ser posterior a 20 de
Fevereiro de 1431, em que aquele santo Padre faleceu Tinha pois sido pedida, e
pode ser que concedida pelo menos em 1430. Por outra parte é de presumir, que o
Infante somente a pediria depois de se ter vencido a grande dificuldade do
Bojador; porque até então nem sabemos que os nossos navegadores saíssem em
terra a negociar, ou procurassem ter comunicação e comércio com os habitantes;
nem é verosímil que o intentassem a respeito dos Mouros, com que os Portugueses
estavam em actual, e contínua guerra. Donde se colige, que antes de 1430,
ou quando muito nesse mesmo anno, já se tinha vencido o Bojador.
Terceira: que na bula do Papa Nicoláo V (já
citada) dos princípios de Janeiro do anno da Encarnação de 1454, que é ano
vulgar de 1455, se diz que o Infante havia vinte e cinco anos (a viginti
quinque annis citra, isto é, há vinte e cinco anos a esta parte) não cessava de
mandar navios ao descobrimento das terras, e costas do Bojador para as partes
do sul. Logo o Bojador já tinha sido dobrado, e já se navegava além dele para o
sul vinte e cinco anos antes da data da bula, o que vem a dar em Janeiro de
1430, e mui provavelmente no anno antecedente de 1429.
Advertência
Pareceu-nos aqui lugar próprio
para notar em geral, que algumas das diferenças que se encontrão nos antigos escritores
a respeito de datas, e que talvez parece que embaraçam a cronologia dos
descobrimentos, se devem atribuir, segundo o nosso juízo, a que uns tomavam por
época de tal, ou tal expedição e descobrimento o ano em que os navegantes saiam
de Portugal: outros o ano em que chegavam á costa de Africa, e efectivamente tocavam
o ponto descoberto, o que muitas vezes sucedia no ano seguinte ao da saída: e
outros finalmente o ano em que voltavam ao reino, e se divulgava a noticia.
Por onde entendemos, que quando a diferença
das datas é pequena, e de anos imediatos, se não deve fazer conta com ela para
daí arguir alguma incerteza no acontecimento, ou alguma variação essencial na
sua época.»
São Luís,
Francisco de, [Cardeal Saraiva], Índice cronológico
das navegações, viagens, descobrimentos e conquistas dos portugueses nos países
ultramarinos desde o princípio do século xv. Lisboa, na
Imprensa Nacional, 1841, pg.15-18
1432
No mesmo anno de 1432 mandou o Infante a Gil Annes,
seu criado, natural do Algarve, comandando uma embarcação, para que tentasse
dobrar o Cabo Bojador; mas ele, ou contrariado dos ventos, ou incitado da
cobiça, sem porfiar no cumprimento da sua com missão, dirigiu-se ás Ilhas
Canarias onde colheu alguns selvagens, com os quais voltou para o Infante,
que o recebeu mal, e como Gil Annes era homem animoso, ofereceu-se a
fazer nova tentativa, e ou dobrar desta vez o Cabo, ou acabar na empresa (1).
(1) Barros, João de, Década 1ª,L.º 2.º, Cap.º 4º
1432.08.15
A 15 de Agosto de 1432, Gonçalo
Cabral descobria a ilha a que pôs o nome de Santa Maria, no arquipélago
depois chamado dos Açores.
«O Infante D. Henrique mandou no anno de
1431, que o Comendador de Almourol na O. de Chr. Fr. Gonçalo Velho Cabral fosse
correr os mares a Oeste, em demanda de novas terras. O navegante encontrou os
baixos das Formigas, situados entre as ilhas de Santa Maria, e S. Miguel, mas
não deu fé de nenhuma delas, e voltou a Portugal a informar o Infante do que
tinha observado.
Foi outra vez mandado no anno seguinte
de 1432 a explorar os mares, em que existiam aqueles baixos, e então com melhor
fortuna descobriu a ilha de Santa Maria, primeira descoberta no arquipélago dos
Açores a 15 de Agosto, e pela circunstância da festividade do dia lhe deu
aquele nome. O Infante fez a Gonçalo Velho Capitão donatário da ilha, e ele a começou
logo a povoar, e cultivar com grande proveito e interesse.»
São Luís, Francisco de, [Cardeal Saraiva], Índice cronológico das navegações,
viagens, descobrimentos e conquistas dos portugueses nos países ultramarinos
desde o princípio do século xv., Lisboa, na Imprensa Nacional, 1841. pg.19
Em compensação, em 1431, Gonçalo Velho, comendador de Almourol, enviado
pelo infante para oeste, em busca de certas ilhas de cuja existência para essas
bandas havia já vagas notícias, encontrou as ilhas Formigas; mas
tornando-se-lhe aí perigosa a navegação, desanimou e regressou a Sagres.
Descrição de Gaspar Frutuoso
"...no ano do Senhor de 1431...tendo o dito Infante em sua casa um
nobre fidalgo e esforçado cavaleiro chamado Frei Gonçalo Velho...de quem por
sua virtude, grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou
descobrir de estas ilhas dos Açores a Ilha de Santa Maria, ou porventura também
esta de São Miguel, o qual aparelhando o navio com as coisas necessárias para a
sua viagem, partiu no dito ano da Vila de Sagres, e navegando com próspero
vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação teve vista
de uns penedos que estão sobre o mar, e se vêem da Ilha de Santa Maria, e de
uns barulhos que fazem, outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados
agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como
formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas
fervem na obra que fazem..."
"Vindo a estas Formigas, Frei
Gonçalo Velho do novo descobrimento...não achando ilha frutuosa e fresca, senão
estéreis e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente
baixas pedras tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua
companhia que o Infante se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica
ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir,
se tornaram desgostosos ao Algarve, de onde partiram sem mais ver outra cousa
que terra parecesse..."
A lenda passa-se numa altura em que Portugal ansiava
descobrir novas terras. À frente desta iniciativa encontrava-se o Infante D.
Henrique, fundador da Escola Náutica de Sagres. Gonçalo Velho Cabral,
marinheiro do Infante e, segundo a lenda, frade devoto da Nossa Senhora, saiu
de Portugal por ordem de D. Henrique e fez-se ao mar numa caravela,
fazendo uma promessa à santa de dar o nome dela à primeira terra que
encontrasse no oceano.
Gonçalo Velho
Cabral esquadrinhava os mapas, anotava as correntes e rezava. Passaram-se
calmarias e tempestades, noites e dias, meses. Foi então que num dia de Verão,
no dia de Nossa Senhora em Agosto, amanheceu um dia claro, suave, de céu limpo.
A vista alcançava grandes distâncias.
As viagens
marítimas dos descobrimentos eram geralmente difíceis, demoradas e
imprevisíveis. Os marinheiros dependiam do vigia, no alto cesto da gávea quase
na ponta de um mastro, para olhar o horizonte, desde o raiar da madrugada até
ao anoitecer e tentar descobrir terra.
Mas na linha do
horizonte foi surgindo uma nuvem, que foi se agigantando, ganhando forma e
nitidez. A dada altura o gajeiro já não tinha mais dúvidas e gritou:
"Terra à vista!". Gonçalo Velho Cabral e a restante marinhagem
começavam o dia, como era hábito nessas alturas, orações a Deus e a Nossa
Senhora para que os ajudasse a encontrar terras novas. Estavam a rezar a
"Ave Maria", e nesse preciso momento pronunciavam "Santa
Maria".
Gonçalo Velho Cabral considerou que se tratava de um
milagre de Nossa Senhora a lembrar-lhe a promessa que tinha feito. Esta era a
primeira ilha descoberta nos Açores, a ilha mãe, que recebeu de imediato o nome
de ilha de Santa Maria. Segundo a lenda, esta fé de Gonçalo Velho perpetuou-se
no local, onde ainda se mantém grande devoção em Nossa Senhora, festejada
efusivamente no mês de Agosto de cada ano.
1433
«Após a conquista de Ceuta, não
ficam repousando, a balouçar no Tejo, as galés de Portugal: - velas paridas, no
mar misterioso e largo, as suas quilhas abrem sulcos novos dia a dia. E, após
quinze viagens tormentosas, sempre de proa ao sul, é dobrado o Cabo Bojador (1433), donde Gil Eanes transporta, corno
mimo estranho, as Rosas de Santa Maria.»
MAGALHÃES, Leite de, A Guiné Portuguesa Através da História,
p.3, Cadernos Coloniais Nº 24, Editorial Cosmos, 1965(?)
1433
Tentativa
infrutífera de passagem do cabo Bojador por Gil Eanes
«Em 1433 - Mandou o Infante armar uma barca, da qual deu capitania a Gil Eanes, seu
escudeiro, natural de Lagos, com encargo de ultrapassar o cabo Bojador. Mas Gil Eanes, como atrás já vimos, não se atreveu a navegar além das Canárias, donde trouxe alguns homens cativos.»
Barreto, João, História da Guiné, 1418-1918, edição do autor, Lisboa, 1938, pg. 16
Obtida licença do Infante, partiu
Gil Eanes segunda vez na mesma embarcação, e dobrando finalmente o suspirado
Cabo, foi desembarcar em uma Baía ao Sul dele; e reconhecido o Pais, e não
achando povoação, nem rasto algum de gente, levantou na praia huma Cruz de pau,
e contentou-se com trazer dali algumas plantas em um barril cheio de terra, em
prova de não ser aquela Região deserta, vindo assaz satisfeito com tão grande
descobrimento, segundo então se reputava a acção de dobrar aquele Cabo, em que
se trabalhava havia tantos anos.
Chegado Gil Annes á presença do
Infante, recebeu este o presente daquelas ervas com alvoroço maior,
do que receberia outra qualquer cousa de grande valor, premiando com honras,
e mercês não só o Descobridor, porém todos os indivíduos da sua embarcação.
Não sabemos em que dia dobrou ele o Cabo Bojador; mas é certo, que
quando voltou a ·Sagres, estava já no Trono EIRei. D. Duarte, que mostrou
igual prazer ao do Infante por aquele descobrimento; o último acontecido na
vida de seu Grande Pai (1).
Faleceu ElRei
D. João I em 14 de Agosto de1433
(1) Faria ,
Asia Portuguesa, no lugar já citado - Goes, Chronica do Príncipe D.
João, Capítulo 8º - Galvão, Tratado dos Descobrimentos, pág.. 22, Soares da
Silva, Memorias de D. João I, tomo 1º, capítulo 83 – Barros, Década 1ª, Lº 1º, Capítulo
4º
1434
Gil Eanes,
escudeiro do infante D. Henrique, passa o cabo Bojador
«Em 1434 - Novamente D. Henrique insiste com o mesmo Gil Eanes para que tente mais uma
vez a passagem daquele ponto, procurando demonstrar-lhe a inanidade das lendas
temerosas que o cercam. E como «o Infante era
homem de grande autoridade, pela qual
suas admoestações, por brandas que fossem, eram para os
sisudos de mui grande encargo, determinou (Gil Eanes) em sua vontade não tornar mais ante a
presença do seu Senhor, sem
certo recado daquilo por que o enviavam». De facto, o intrépido navegador assim fez, e nessa viagem dobrou o célebre e lendário cabo que, segundo a tradição da época, «era o termo
que Deus pusera nos mares à audaciosa temeridade dos homens.» A passagem do cabo Bojador revolucionou a arte de navegar o sul
do Atlântico, não só por ter destruído as lendas antigas, mas
sobretudo por se ter descoberto a rota das viagens de regresso, por alto mar, fugindo dos ventos alisados, que tornavam impraticável a navegação costeira além das Canárias e do cabo Jubi. Não tendo encontrado ao longo da costa senão dunas desertas de
areia, Gil Eanes trouxe como sinal da sua passagem «estas ervas
que aqui apresento a Vossa Mercê, as quais nós em este reino chamamos rosas de
Santa Maria.»
Barreto, João, História da Guiné 1418-1918, edição do
autor, Lisboa, 1938, pp. 16-17
Em Maio de 1434, Gil Eanes
aparelhou uma barca de 30 toneladas, com um só mastro, e uma única vela redonda
e também movida a remos e parcialmente coberta. Com ela ao chegar nas
proximidades do cabo do medo, decidiu manobrar para oeste afastando-se da costa
africana. Após um dia inteiro de navegação longe da costa, deparou com uma baía
plácida de ventos amenos, e então dobrou para sudeste e logo percebeu que havia
deixado o Cabo Bojador para trás
«Duarte Pacheco Pereira, no
capítulo 22 do livro I do seu Esmeraldo, referindo-se à
passagem do Cabo Bojador, em 1434, diz: «E certamente cousa é para
repreender os cavaleiros, dos do Infante que ele mandou por capitães dos seus
navios descobrir esse cabo Bojador e assim os mareantes que com eles iam não
ousavam passar alem, porque doze anos continuamente foram enviados cada ano
pelo Infante a este descobrimento...»
Temos, por fim, o depoimento de
Azurara, no capítulo IX da sua Chronica, em que, falando
da primeira tentativa feita por Gil Eanes para a passagem do Bojador, diz: «E
finalmente, depois de doze anos, fez o Infante armar uma barca
da qual deu capitania a um Gil Eanes... o qual seguindo a viagem dos
outros, «tocado daquele mesmo temor, não chegou mais que às ilhas de Canária… E
foi isto no ano de Jesus Cristo de mil quatrocentos e trinta e três».
Barreto, João, História da Guiné 1418-1918, edição do
autor, Lisboa, 1938, pp. 15-16
Tornou o Infante D. Henrique a
mandar Gil Annes, e com ele em outra embarcação maior, chamada então
Barinel (creio que era um Patacho), Afonso Gonçalves Baldaia, seu
Copeiro, para prosseguirem o exame da Costa de Africa além do Cabo Bojador,
como fizeram; e favorecidos dos ventos, correram obra de oitenta milhas para o
Sul dele, até huma bela Enseada em que surgirão, e pelos muitos ruivos que ali pescaram,
lhe chamaram Angra dos Ruivos, nome que ainda
conserva em todas as Cartas (3). Examinando o Pais, acharam rasto de
gente, e de camelos em diferentes direcções; com cujas notícias
regressarão a Portugal (4).
(3) Galvão, pág.. 23
– Chronica do Príncipe D. João, Cap.º8.º - Barros, Década 1.ª, L..º 1.º,
Cap. 5º - Memorias de D. João I, Capítulo 83. - Faria, Asia , Parte 1, tomo 1.
(4) A terra
deste Cabo Bojador para o Sul é montanhosa, mas vai progressivamente abaixando
para a Enseada, ou Angra dos Ruivos, e não tem coisa notável,
que a faça conhecer de longe, senão hum monte alto, e piramidal, cousa de doze
léguas além do Cabo, chamado Penha Grande. Esta Angra
tem quatro léguas de boca, e fundo de areia, com três a duas braças
de água.
«O mesmo Gil Eannes, que
dobrara o cabo Bojador, voltou em 1434 àquelas paragens com Afonso Gonçalves
Baldaia, Copeiro do Infante. Passarão obra de 30 léguas adiante do cabo, e
descobrirão huma angra, ou baía, a que puseram nome Angra de Ruivos por
acharem ali muitos dos peixes, a que os Portugueses chamam ruivos.
No anno seguinte ou estavam ainda
nas mesmas paragens, ou a elas voltarão. Adiantaram mais 12 léguas pela costa,
e saindo em terra Heitor Homem, e Diogo Lopes de Almeida, encontrarão alguns
bárbaros, que á vista dos nossos se puseram em fugida. Passarão ainda depois
hum pouco mais adiante, e chegarão a foz de um rio, aonde matarão muitos lobos
marinhos (espécie de phocas, segundo parece) cujas peles
trouxeram a Portugal.
Este lugar é o que nas antigas relações se ficou denominando o posto dos
lobos marinhos: e o rio tomou logo depois o nome de Rio do Ouro pelo
resgate que aí se fez deste metal. Sobre o Rio do ouro, segundo a
observação de hum antigo piloto português, corre a linha do trópico
de Cancro, pelo que se vê que denotava o rio a 23° e 30' setentrional., que
era a posição que algumas antigas cartas davam á linha do trópico.»
São Luís,
Francisco de, [Cardeal Saraiva], Índice cronológico das navegações, viagens,
descobrimentos e conquistas dos portugueses nos países ultramarinos desde o
princípio do século xv. Lisboa, na Imprensa Nacional, 1841, pp.20-21
Expedição
henriquina às Canárias
1435
Gil Eanes
e Afonso Gonçalves Baldaia chegam a Angra dos Ruivos (50
léguas além do Bojador)
«Em 1435 - Nova expedição de Gil
Eanes, com sua barca, acompanhado de um barinel sob a
capitania de Afonso Gonçalves Baldaia, copeiro do
Infante, os quais avançaram 50 léguas ao sul do
Bojador, até uma angra a que, segundo Barros, se deu o nome de Angra
dos Ruivos, por causa de grande
número de peixes desse nome que ali encontraram.»
Barreto, João, História da Guiné 1418-1918, edição do autor, Lisboa, 1938, pág. 17
Em 1435, Afonso Baldaia
e Gil Eanes, enviados para ir mais além do Bojador,
avançaram mais 50 léguas e descobriram uma
angra (Angra dos Ruivos) onde viram
rastos de homens e de camelos.
Em 1436,
os mesmos nautas
atingiram um ponto da costa, a Ponta da
Galé, a 170 léguas ao sul do Bojador.
Nesse anno
mandou o Infante os mesmos dous Navegantes, para continuarem os descobrimentos
além da Angra dos Ruivos; e para que pudessem examinar o Pais a maior distância
do mar, fez embarcar dous cavalos no navio de AFFONSO GONÇALVES BALDAIA.
As suas instruções eram, que procurassem
chegar a terra povoada, e colher algum dos naturais, que desse boa informação
do estado daquelas Regiões. Saíram de Sagres os dous Descobridores, e dobrando o
Cabo Bojador, seguirão a Costa, que da Angra dos Ruivos para o Sul é muito rasa
com algum mato; e obra de quarenta milhas além dela acharão uma Enseada, onde ancoraram
(1). E como a terra era descoberta, mandou Afonso Gonçalves desembarcar os cavalos,
e neles partirão armados de espada, e lança, HEITOR HOMEM, e DIOGO LOPES DE
ALMEIDA, mancebos de nobre nascimento, educados no Palácio do Infante D.
Henrique, de idade de dezassete anos, levando ordem pra examinar o País, sem
nunca se apearem, nem apartarem hum do outro; e que achando algum dos naturais,
e podendo aprisiona-lo sem risco seu, o fizessem. Exploraram eles inutilmente a
campanha quase toda a manhã, e achando-se já mui longe dos navios, encontrarão dezanove
Mouros de medonho aspecto, cada um com a sua azagaia na mão; e tão de súbito
foi este encontro, que os moços houveram por melhor acometê-los logo, que
retirar-se depois de vistos, por lhes não dar mais ousadia. Porem os Mouros,
espantados de verem homens estranhos, de que não tinham ideia alguma, refugiaram-se
em huma caverna, que ficava debaixo de uns penedos, onde se defenderam bom
espaço, que durou a briga, á custa de algumas feridas dos seus, e de uma que um
dos moços também recebeu; sendo este o primeiro sangue Português, que se
derramou naquela barbara Região; e vendo os dous, que não lhes era possível
forçar a entrada da gruta, voltarão para os navios, onde chegaram na manhã
seguinte.
Com esta notícia partiu Afonso Gonçalves com gente bem
armada em busca os Mouros, de que só achou algum miserável despojo, que por
temor abandonaram na caverna; e recolhendo-se aos navios, saiu daquela
Baia a que deu o nome de Angra dos Cavalos, e
prosseguiu o seu descobrimento para o Sul.
Havendo
navegado outras quarenta milhas, viu um Rio, que entrava pela terra na direcção
de N.E. (é o mesmo Rio do Ouro, de que adiante falarei), e tinha na
boca uma Ilhota de areia, em que havia tanta multidão de lobos marinhos, que os
Portugueses os avaliarão em cinco mil, e deles mataram muitos, para aproveitar
as peles, que naqueles tempos valiam muito no Comércio. Afonso Gonçalves,
que a todo o custo queria levar ao Infante algum natural daqueles Países, não
se contentando de interesses mercantis, seguiu quarenta léguas mais avante, e
chegando a uma ponta a que deu o nome de Pedra da Galé, pela semelhança
que se lhe figurou ter com uma Galé, achou umas redes de pescadores, que
pareciam ser feitas de fibras de alguma arvore, e na esperança de tomar algum
habitante, desembarcou varias vezes naquela Costa; mas não achando o que
buscava, e tendo já os mantimentos gastos, voltou para Portugal (2).
(1) Esta Enseada,
ou Angra dos Cavalos tem sete braças de fundo limpo de areia vermelha.
(2) Esta relação é
tirada de João de Barros, de Faria e Sousa, de José Soares da Silva, e da Crónica
do Príncipe D. João, nos lugares já citados.
A expedição a Tânger e a morte de El-Rei D. Duarte, fizeram com que as
viagens para Sul na costa Ocidental da África ficassem suspensas durante cerca
de cinco anos.
«Mas finalmente, apesar de mil pareceres contrários, a
licença dada prevaleceu e dizem que esta confirmação tornara
a dever-se à Rainha, intercessora que tudo podia no amor de ElRei. Mandou-se alistar
gente, até encher o número de quatorze mil soldados, e logo aqui começou
a guerra nas vexações ao povo, arrancando-lhe com os filhos pesados
tributos. ·Enfim desaferrou a Armada aos 22 de Agosto de 1437;
e chegando os Infantes a Ceuta aos 27 do mesmo mês, fizeram revila da gente, e
acharam pouco mais de seis mil homens; porque os Navios não eram os que bastavam
para alojar o número, que se havia determinado. Também fugiu uma grande
parte; e daqui se colherá, qual fora a violência desta Expedição, fugindo dela
homens de uma idade, em que o não ir à guerra se tinha por desonra.
…
Aconselhados
do temor os Mouros de Henamede quiseram voluntariamente comprar seu descanso,
oferecendo um tributo em sinal de sua vassalagem à Coroa Portuguesa. Aceitaram-no
os Infantes, e tiveram o sucesso como presságio de futuras vitórias. Por isso desprezados
os conselhos de Capitães experimentados nos perigos de Ceuta, que aconselharam se
mandasse pedir mais gente ao Reino, determinaram dar princípio à Acção,
julgando a falta como circunstância, que no juízo do Mundo daria maior valor à Conquista.
…
Com esta ocasião
viu, que era impraticável a passagem por aquela parte, obstando não só a aspereza
do fragoso caminho, mas a multidão de Mouros, que o defendiam. Assentou em
marchar por Tetuão; e como o Infante D. Fernando o não podia acompanhar,
por estar de uma perna gravemente enfermo, foi embarcado esperá-lo nas praias
de Tanger.
…
Chegaram enfim em 14 de Setembro a Tanger, cansados de
deixar assoladas muitas Vilas, e Lugares, sem que as mortes de não poucos
Mouros nos custassem uma só vida. Já os esperava o Infante D. Fernando, e aquartelando-se
todos , descansaram da prolixa marcha.
…
Se bastasse
só o valor, para igualar em partido o nosso limitado poder a esta inundação de
Inimigos, tanto fiava dos seus o magnânimo Infante, que quase podia lisonjear-se
com a Conquista de toda a Africa; mas cabendo a cada Português quási um exército
de Mouros, bem via, que era forçoso dar-se à multidão a vitória.
…
Invocado o
todo Poderoso entrou-se ao assalto. Com mais temeridade que valor se arrimou à
muralha uma única escada, que tínhamos. Subiram muitos soldados com
animo tão intrépido como se a Praça estivesse deserta; mas foram infelizes,
porque logo queimou a escada o muito fogo, que os Inimigos arrojavam, de que foi
consequência perderem as vidas os que por ela subiam. Os Mouros soberbos já com
a certeza da vitoria, não a quiseram demorar, e saíram a acometer-nos ao campo:
apozemo-nos com ânimo imperturbável; mas como eles tinham para oprimir dobrados
esforços, à maneira de rio despenhado que leva na corrente tudo o que encontra,
fizeram-nos retroceder, e deixar-lhes com a artilharia os mais petrechos, que
ainda estavam na praia.
Intentou o
Infante já arrependido tomar a investir, querendo que lhe tirassem a vida
as mesmas mãos, que lhe tiravam a vitória. Opuseram-se os Cabos principais,
propondo-lhe :…
…
Apresentaram-nos
na praia hum horror de gente armada; tomaram-na, e renderam-nos por bloqueio, ajuntando-se
não só a entrega de Ceuta, e de seus prisioneiros, mas todo o trem, e bagagem,
que trazíamos; rematando o ajuste com a cláusula, de que por cem anos lhes não faríamos
guerra.
Para ficar em reféns, ofereceu-se o lnfante D. Henrique;
mas não se lhe consenti huma acção, que coroaria de nova glória seu nome ilustre.
Coube esta ao Infante D. Fernando, que a soube merecer de maneira que desde então
começou juntamente a pronunciar-se seu nome com o epiteto de Santo. Para nossa
segurança Zalá Benzalá, que agora governava Tânger com melhor fortuna,
do que Ceuta em outro tempo, entregou seu filho a Ruy Gomes da Silva, recebendo por
certeza da restituição a João Gomes do Avelar, Pedro de Ataíde, Ayres da
Cunha, e Gomes da Silva, Fidalgos, a quem feri esforço dera entre aqueles Bárbaros
um nome distinto».
Cândido
Lusitano, Vida do Infante D. Henrique, Lisboa, Oficina Patriarcal de Francisco Luiz
Ameno, MDCCLVIIl., pp. 111-139
1436
Afonso
Gonçalves de Baldaia chega à Pedra da Galé e ao Rio
do Ouro
«Em 1436
- Foi enviado novamente o
capitão Afonso Baldaia com a missão de avançar o mais que
pudesse e de «haver língua dessa gente, filhando algum, por que
o certamente o possais saber». Quere
dizer, Baldaia levava ordens para aprisionar algum indígena
que pudesse servir de intérprete e informador.
Nessa
viagem Baldaia navegou até às proximidades do Rio do Ouro, a 120 léguas
ao sul do cabo Bojador, atingindo a foz de
um rio a que se deu o nome de Angra de Cavalos. Desembarcou dois
cavalos que trazia e confiando-os a Heitor Homem e Lopo de
Almeida, encarregou-os de reconhecerem a região.
Pela
primeira vez, os expedicionários
portugueses tomaram contacto com um grupo de 19
mouros, não tendo, porém, conseguido
prender nenhum deles por terem fugido. Descontente por não
poder levar ao Infante qualquer habitante da localidade, Baldaia resolveu
continuar a navegar até que, 50 léguas mais para o Sul, avistou
um alto penedo a que deu o nome de Pedra da Galé (a), por
causa da sua figuração. O navio trouxe no seu regresso um
importante carregamento de couros e óleo de lobos marinhos (Phoca
Vitulina, de Linneu) de que encontraram grande número na
referida angra.
(a)A Pedra da Galé, ou Porto da Galé, que em alguns mapas
estrangeiros aparece com o nome de Pedra da Galha ou Galha's Point, fica
situada entre o Cabo das Barbas e o Cabo Carvoeiro, no paralelo 22°.12, Norte,
havendo portanto entre este ponto e o Cabo Bojador uma diferença de quási 4
graus. É difícil conciliar esta distância de 4 graus com as 170 léguas que,
segundo Azurara, Baldaia teria percorrido nesta sua viagem ao Sul do Bojador.
Teríamos uma légua de cerca de 2.400 metros, ou sejam 42 léguas ao
grau. Devemos portanto admitir que houve exagero no número das léguas aqui indicadas,
ou que a légua de Azurara tinha um valor diferente, regulando por metade da
extensão daquela que se supõe teria em geral no século XV: grau de 70 milhas,
ou 17,5 léguas. Légua = 5.920 metros, Convém notar que Duarte Pacheco indica 12
léguas como distância entre o Cabo Branco e a ilha de Arguim, ao passo que
Azurara fixa-a em 25, isto é, também o dobro das primeiras.»
Início do
povoamento do arquipélago dos Açores
No tempo de D. Afonso IV (1325-1357)
Provável expedição às ilhas Canárias, a que se seguiram expedições adicionais
em 1340 e 1341, embora tal seja discutido.













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